High Potentials que falham: porque nem todo o talento acelera quando sobe de posição

30 de março de 2026
Escrito por Helena Ravara

A promoção parecia óbvia. O historial justificava-a, os resultados eram consistentes e a decisão foi tomada com confiança. Meses depois, a realidade era outra: a pessoa que era excelente na posição anterior estava a lutar com a nova, a equipa ressentia o impacto e a organização deparava-se com um problema que ninguém tinha antecipado.

Este cenário é mais comum do que as organizações gostam de admitir. E o custo, raramente contabilizado de forma explícita, é significativo, tanto para quem foi promovido, como para quem o rodeia e para a organização que tomou a decisão.

O problema não está na pessoa. Está na assunção de que desempenho elevado num determinado contexto é preditor suficiente de eficácia num contexto diferente, com exigências diferentes, dinâmicas diferentes e uma relação com a complexidade que muda de forma substantiva quando se sobe de posição.

Desempenho elevado não é garantia de eficácia em novos contextos

A lógica que sustenta muitas decisões de promoção é aparentemente sólida: se alguém tem bom desempenho na posição atual, tem as condições para bom desempenho na posição seguinte. Esta premissa ignora algo fundamental: que o que tornou alguém excelente até aqui pode não ser o que é necessário para ter impacto no próximo nível.

Em posições de maior responsabilidade, a natureza do trabalho muda. A execução direta dá lugar à influência indireta. A resolução de problemas técnicos cede espaço à gestão da ambiguidade. A visibilidade aumenta, a margem de erro percebida diminui e a capacidade de mobilizar outros passa a ser mais determinante do que a capacidade individual de entregar resultados.

Estas são competências distintas. Podem coexistir com as que garantiram o desempenho anterior, mas não derivam automaticamente delas. Um profissional altamente eficaz na execução pode não ter ainda desenvolvido a autoconsciência, a resiliência ou a leitura sistémica que os novos contextos exigem, e essa lacuna raramente é visível antes da promoção acontecer.

O que muda quando se sobe e porque nem todos estão preparados para essa mudança

A transição para posições de maior responsabilidade implica uma reconfiguração profunda da forma como o trabalho é feito e da forma como o impacto é gerado. Quem sobe deixa de poder depender apenas das suas competências técnicas ou do seu desempenho individual para justificar o seu valor. Passa a ser avaliado pela qualidade das decisões que toma, pela forma como desenvolve e alinha equipas e pela capacidade de operar com clareza em contextos de maior incerteza.

Para muitos high potentials, esta transição é o primeiro momento em que as suas limitações comportamentais e motivacionais se tornam visíveis. Não porque essas limitações sejam novas, mas porque o contexto anterior não as expunha com a mesma intensidade. A pressão aumenta, a complexidade cresce e os mecanismos de compensação que funcionavam em papéis anteriores deixam de ser suficientes.

No contexto de um assessment pode ser importante avaliar não só a personalidade, as características comportamentais tal como se revelam no quotidiano do profissional, como também identificar as características de personalidade, comportamentos que emergem em condições de elevado stress ou pressão e que podem prejudicar o desempenho profissional, impactar negativamente nos relacionamentos de trabalho e prejudicar carreiras.

A investigação com líderes de alto potencial aponta consistentemente para três eixos críticos onde as falhas ocorrem com maior frequência: autoconsciência limitada sobre o impacto nos outros, dificuldade em manter eficácia sob pressão prolongada e resistência a adaptar o estilo de liderança à complexidade do novo contexto. Estes não são traços de personalidade imutáveis, mas são padrões que precisam de ser identificados antes da promoção, não depois.

O custo invisível das promoções falhadas

Quando uma promoção corre mal, o custo raramente aparece numa linha de orçamento. Distribui-se de forma silenciosa por várias dimensões da organização, tornando-se difícil de atribuir e ainda mais difícil de quantificar.

Para o indivíduo, o impacto é frequentemente severo. A confiança ressente-se, a identidade profissional é posta em causa e a experiência de falhar num papel para o qual foi publicamente promovido deixa marcas que influenciam a trajetória seguinte, dentro ou fora da organização.

Para a equipa, uma liderança intermédia fragilizada traduz-se em menor clareza, maior ambiguidade nas prioridades e perda de referência num momento em que a estabilidade é crítica. Os melhores elementos tendem a ser os primeiros a reagir, procurando contextos onde a liderança seja mais sólida.

Para a organização, o impacto acumula-se: perda de produtividade durante o período de ajustamento, eventual saída do indivíduo promovido ou de membros da sua equipa, e o custo de um novo processo de recrutamento ou reposicionamento interno. A decisão que parecia óbvia acaba por ter um preço que ninguém tinha previsto.

Autoconsciência, resiliência e gestão da complexidade como fatores críticos

A literatura sobre estas características de personalidade, tendências de comportamento em líderes de alto potencial converge num conjunto de fatores que, quando ausentes ou subdesenvolvidos, aumentam significativamente o risco de falha após uma promoção.

A autoconsciência é o primeiro. Líderes com baixa consciência do impacto que têm nos outros tendem a replicar comportamentos que foram funcionais em contextos anteriores sem perceber que estão a gerar fricção, desalinhamento ou resistência nas equipas que agora lideram. Esta lacuna é particularmente insidiosa porque quem a tem raramente a reconhece sem um processo estruturado de feedback.

A resiliência, entendida não como resistência ao stress, mas como capacidade de manter eficácia e clareza em contextos de pressão prolongada, é o segundo fator. Posições de maior responsabilidade expõem os líderes a um nível de exigência sustentada que testa os limites do equilíbrio pessoal e profissional. Quem não desenvolveu mecanismos robustos para gerir essa pressão tende a tomar decisões mais reativas, a fechar-se sobre si próprio ou a perder a qualidade relacional que o destacava anteriormente.

A gestão da complexidade é o terceiro. À medida que se sobe, as decisões envolvem mais variáveis, mais stakeholders e horizontes temporais mais longos. A capacidade de operar com conforto nessa ambiguidade, de tomar decisões sem informação completa e de manter direção estratégica quando o contexto é fluido é uma competência que nem todos os high potentials desenvolvem ao mesmo ritmo.

Avaliar antes de acelerar

A resposta a este problema não é abrandar as carreiras de alto potencial nem introduzir burocracia nos processos de promoção. É garantir que as decisões de aceleração são tomadas com base em evidência comportamental e motivacional robusta, e não apenas em historial de desempenho.

A avaliação estruturada permite mapear, antes da promoção acontecer, os padrões que determinam a eficácia em contextos de maior complexidade. Identifica onde estão os riscos, quais as condições em que o colaborador trabalha melhor e onde são necessários investimentos de desenvolvimento antes de dar o passo seguinte.

Esta abordagem não elimina o risco, nenhum processo o faz, mas reduz substancialmente a probabilidade de decisões baseadas em pressupostos que o contexto não confirma. E, quando a promoção acontece com esta base, a organização e o indivíduo estão melhor preparados para gerir a transição com consciência e suporte adequado.

Na Neves de Almeida, a avaliação de high potentials é conduzida com esta lógica: rigor científico na leitura dos padrões comportamentais e motivacionais, combinado com uma leitura contextual que considera as exigências específicas do papel para o qual o talento está a ser considerado.

Porque acelerar bem não é apenas uma questão de timing, é uma questão de preparação.

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Escrito por

Helena Ravara

Helena é licenciada em Psicologia (Ramo de Psicologia Social e das Organizações) pela Universidade de Lisboa e exerce atualmente o cargo de Head of Talent Assessment na Neves de Almeida HR Consulting. Iniciou a carreira profissional na SHL e em 1994 participou no start-up da atual RAY Human Capital em Portugal, onde exerceu funções de management e desenvolveu projetos de recrutamento e seleção, assessment centres, modelos de competências e diagnóstico organizacional. Em 2007 passou a Partner na Odgers Berndtson, com funções de gestão de operações e da equipa, para além de gerir projetos de Executive Search e Leadership Assessment.Está desde 2017 na Neves de Almeida HR Consulting, onde integrou a área de Executive Search, como Partner, e acumulou mais tarde com a responsabilidade pela área de Talent Assessment.Tem desenvolvido projetos nas áreas de Executive Search e Talent Assessment e gerido clientes de vários setores, como sejam Indústria, Farmacêutico & Saúde, Financeiro, Bens de Consumo, Serviços e Tecnologia, com projetos também em Training, Consulting e Team Building.Adora a família, conviver e viajar (também nos livros, nos filmes e na gastronomia) e para canalizar energia positiva é “yogini” desde 2007. Saiba mais
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